Um dia, algo nasceu de um livro que ficava escondido no cerne de uma árvore. Enquanto nascia, foi escorrendo para fora das páginas, solidificando-se à medida que empurrava as cascas da árvore que lhe prendia. Ele tinha a pele toda rabiscada de letras e no lugar de sangue, tinta. Sua pele era pálida e seca, além de quase transparente, como papel-manteiga. Ele nasceu muito rápido e quase rasgou nas dobras, de tanto que se mexia. Enquanto os minutos passavam e ele tentava pensar como saíra do livro, dobrou-se tanto em pensamentos que transformou-se num pássaro de origami. Voou um voo daqueles meio tímidos, de pássaro que recém cai do ninho, pois suas asas eram muito finas e podiam amassar se não tivesse cuidado. Gostou de planar, mas logo cansou-se de ficar em volta da árvore onde nascera. Ele não podia ter nascido para ficar girando e planando em volta de um único lugar, se pelo que seus olhos de pássaro-dobradura podiam ver, era tudo tão belo e tão vasto.
Não, ele precisava conhecer mais.
Voou o mais alto que pode, e abriu o máximo que pode suas asas, para sustentar-se com o vento e seguir para longe.
A sensação de pairar no ar era tão boa, que absorto em pensamentos bons e distraído de tudo o mais que o cercava, fechou os olhos e foi embalado pelo sono. Não percebeu o quanto estava se afastando. Não percebeu o dia dando lugar para a noite. Uma rajada de vento forte o acertou, fazendo-o cambalear e perder o controle. Acabou caindo n’água.
De início, se apavorou todo, tanto que ficou sem reação alguma, enquanto lentamente foi se desdobrando, como uma vitória-régia, papel amassado voltando à forma original enquanto sentia a força arrebatadora da água molhando suas vértices.
Num último esforço, com medo de deixar de existir ali mesmo, pensou em uma forma de usar toda aquela força líquida a seu favor, e nesse instante começou a sentir um formigamento em todo o seu ser, acabando por transformar-se em um barco. Mover-se estava fora de cogitação, toda vez que tentava quase virava de lado. Desistiu e deixou-se levar pela correnteza e pela brisa, sem saber ao certo onde chegaria.
Depois de semanas, sendo castigado pelo sol, brisa e água, foi empurrado para um lamaçal, onde acabou por tornar-se uma pelota mole e disforme, devido à quantidade de água absorvida. Sem conseguir movimentar-se muito bem, voltou a ser aquela forma original, mas com a tinta meio borrada, mais visível ainda.
Notou que a lama nos pés o deixava mais firme e optou por espalhá-la em todo o seu corpo. Pouco a pouco foi moldando-se, num processo que demorou alguns meses. Acabou ganhando formas humanas, de tal maneira que era impossível saber a olho nú que nunca o fora. Por dentro ainda era todo rabiscos e tinta, mas por fora, a lama havia se transformado em pele, os musgos que encontrou pelo caminho viraram seus cabelos, e duas pedrinhas de quartzo formavam seus olhos.
Gostou da nova forma, seduziu-se por ela enquanto olhava seu reflexo na água. Envaideceu-se.
Refletiu, e depois de um tempo decidiu seu sexo, seu nome, sua essência. No processo percebeu que enquanto desejava, mais parecido com um ser humano ele ficava.
Havia se lapidado de tal maneira, que todos os seres que conheceram-no trataram de espalhar para seus vizinhos e parentes que haviam conhecido Hector, o misterioso, um humano tão impar que possuía olhos que brilhavam. Nesse ponto já havia decidido que nunca contaria a ninguém sua origem um tanto estranha. Só faria as pessoas e os seres terem medo e descrença em suas palavras. Trancou todas as lembranças do primeiro dia em seu peito, da pele frágil no nascimento às transformações inusitadas. Seu desejo por ser e permanecer humano acabou por fazê-lo esquecer-se que um dia nascera de um livro dentro de uma árvore.
Em pouco tempo Hector ficou conhecido não só pelo povoado que ficava perto do lamaçal, mas por toda aquela terra. Arrebatou-a com sua persuasão e transformou-a em seu próprio reino. Nos dias de glória que se sucederam, fez amigos muito importantes. O Lagarta era de longe um dos mais especiais, pois o aconselhava de todas as formas possíveis, sempre o motivando e lhe fazendo perguntas que instigassem sua mente a tentar se agarrar às lembranças de quem era.
Foram tempos felizes. Tempos únicos.
Hector seduzia-se cada vez mais pelo poder e pelo conhecimento. Só começaram a perceber algo estranho muito tempo depois, quando notaram que o rei de olhos reluzentes não envelhecia.
Mas isso tudo foi antes. Antes do vazio tomar conta de tudo e de todos.
O vazio era cruel, arrebatador, traiçoeiro. Chegava de mansinho, e quando começaram a percebê-lo tomando conta de tudo e de todos, já era tarde demais.
Hector ficou desolado. Seu reino fora tomado, amaldiçoado e estraçalhado de forma que não restava mais nada além do vazio. Abateu-se tanto que começou a renegar tudo.
Não restava mais luz, ele engolira-a, passara a repudiá-la, de forma que agora só vivia entre as sombras. As sombras mostravam-no tudo o que não pode fazer para salvar seu reino. Com medo da luz, envolveu-se com o manto da escuridão.
Agora, em meio ao escuro, ele encontra-se perdido.
Quando acordou, o obscuro lembrou-se de todas as palavras que foram sussurradas em seu ouvido enquanto dormia. Palavras que falavam dele mesmo, de toda sua história. Partes inclusive que ele já não se lembrava a muito tempo.
Não sabia como, mas havia alguém que o conhecia melhor do que ele mesmo, e pela primeira vez teve vertigens e medo do escuro.
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