Entre playlists e lembranças

Depois da meia-noite, começo a fazer a playlist.
Invoco toda a nostalgia guardada, todos os sentimentos esquecidos.
Quero melancolia. Quero romantismo.
Coloco dez músicas, e quando penso na décima primeira, a que vai “fechar o pacote”, a única que quero colocar é “No ordinary love”.
Me deparo com duas versões: a original, da Sade, e a de um álbum de covers que o Deftones fez.
Ouço as duas deitado na cama, de olhos fechados.
Fico com a Sade.
Mesmo sem perceber, acabo de começar um ritual.
Ele ficou dormindo todo esse tempo, e eu sei que, se eu acordá-lo vai doer, mas não percebo o que acabo de cometer.
A música cessa
O sono é instantâneo.
Ele finalmente acorda e está livre para me mostrar o que não quero ver (ou quero, e não me dei conta, afinal, fui eu quem alimentei ele).

Minha lembrança sua está irritada comigo.
Você está lindo, do jeito que era quando estávamos juntos. Quando ele era eu.
Ele te pergunta o que foi e te pede para ficar.
Você olha não para ele, mas para mim, e diz, “O que raios você está fazendo com a sua vida?”
Ele e eu abaixamos nossas cabeças, e dizemos em uníssono “eu não sei”.
Eu então ouço o barulho do despertador e me vejo sumindo.
Antes de acordar por completo ainda ouço ele te dizer “mas ainda te amo”.
Sei que não era você. O “você” que eu conheci é só uma lembrança.
Sei disso da mesma forma que sei que ele não é mais eu. Não consigo voltar a sê-lo.
Mas lembranças, por mais distantes que sejam, não deixam de doer.

Vazio sem mim

Vou até o meu portão, grito meu nome e bato palmas. Não venho ver quem é.
Descubro que devo ter esquecido de fechar o cadeado. Como o portão não está trancado, abro-o.
Chego na porta. Bato, grito novamente. Não estou. (Ou, se estou, penso eu, devo ter dormido, estou com os ouvidos tapados, ou me esqueci de me atentar às batidas que vem da porta).
Resolvo ir embora.
Volto no dia seguinte. Novo dia, novas tentativas.
Não adianta.
Tento por semanas seguidas. Não me encontro nunca.
Queria me achar, nem que fosse por uns minutos, pra falar a falta que eu faço para mim, mas devo ter me mudado, me perdido, ou então, pior ainda, fui sequestrado.
Não quero saber. Não ligo de eu não ter me dito que iria sair ou tirar férias.
Prometo que não vou me magoar quando eu chegar com um sorriso amarelo pedindo desculpas e falando aquelas juras que eu sei que não vou cumprir, de que “eu nunca mais vou fazer isso”.
Só me quero de volta.

E se alguém me encontrar, por favor, devolva-me.

Quem?

A confusão tomara o controle da cabeça do Obscuro.
Afinal, quem lhe contara aquelas coisas? Quem sabia sua história além dele mesmo?
Foi aos poucos percebendo uma realidade que começou a lhe dar calafrios: o livro não poderia ter surgido dentro de uma árvore. De alguma forma, mágica ou não, ele havia sido colocado lá. Mas por qual propósito, afinal? Uma palavra impertinente instaurara-se em sua mente, até não ter mais como controlar, e ele precisou escrever no chão onde se encontrava.

“Quem? Quem és tu que me contas minha própria história, vista por olhos que não são os meus? Quem és tu que, com vestes de espectador, conhecia as complicações de meu bizarro nascimento, e viajou comigo enquanto as transformações em meu âmago se sucediam, até eu ser quem hoje sou? Quem, e com que coragem, vem até mim e traiçoeiro, aguarda meu sono, para só então sussurrar as verdades que por tanto tempo guardadas, perderam-se até de mim mesmo?”

Hector, com as mãos e unhas lambuzadas de terra, sentiu a brisa vindo de encontro ao seu corpo. Nenhum barulho, que não o da natureza, encontrava-se ali.
Mas, sem origem nenhuma, e ao mesmo tempo, de todas as direções, ouviu um urro tão alto que espantou as aves das copas, fez as formigas pararem seu labor, e fez os sapos pararem de coaxar.

- Eu? Quem sou eu? Quem haveria eu de ser, senão você?

Lembranças de rei

Um dia, algo nasceu de um livro que ficava escondido no cerne de uma árvore. Enquanto nascia, foi escorrendo para fora das páginas, solidificando-se à medida que empurrava as cascas da árvore que lhe prendia. Ele tinha a pele toda rabiscada de letras e no lugar de sangue, tinta. Sua pele era pálida e seca, além de quase transparente, como papel-manteiga. Ele nasceu muito rápido e quase rasgou nas dobras, de tanto que se mexia. Enquanto os minutos passavam e ele tentava pensar como saíra do livro, dobrou-se tanto em pensamentos que transformou-se num pássaro de origami. Voou um voo daqueles meio tímidos, de pássaro que recém cai do ninho, pois suas asas eram muito finas e podiam amassar se não tivesse cuidado. Gostou de planar, mas logo cansou-se de ficar em volta da árvore onde nascera. Ele não podia ter nascido para ficar girando e planando em volta de um único lugar, se pelo que seus olhos de pássaro-dobradura podiam ver, era tudo tão belo e tão vasto.
Não, ele precisava conhecer mais.
Voou o mais alto que pode, e abriu o máximo que pode suas asas, para sustentar-se com o vento e seguir para longe.
A sensação de pairar no ar era tão boa, que absorto em pensamentos bons e distraído de tudo o mais que o cercava, fechou os olhos e foi embalado pelo sono. Não percebeu o quanto estava se afastando. Não percebeu o dia dando lugar para a noite. Uma rajada de vento forte o acertou, fazendo-o cambalear e perder o controle. Acabou caindo n’água.
De início, se apavorou todo, tanto que ficou sem reação alguma, enquanto lentamente foi se desdobrando, como uma vitória-régia, papel amassado voltando à forma original enquanto sentia a força arrebatadora da água molhando suas vértices.
Num último esforço, com medo de deixar de existir ali mesmo, pensou em uma forma de usar toda aquela força líquida a seu favor, e nesse instante começou a sentir um formigamento em todo o seu ser, acabando por transformar-se em um barco. Mover-se estava fora de cogitação, toda vez que tentava quase virava de lado. Desistiu e deixou-se levar pela correnteza e pela brisa, sem saber ao certo onde chegaria.
Depois de semanas, sendo castigado pelo sol, brisa e água, foi empurrado para um lamaçal, onde acabou por tornar-se uma pelota mole e disforme, devido à quantidade de água absorvida. Sem conseguir movimentar-se muito bem, voltou a ser aquela forma original, mas com a tinta meio borrada, mais visível ainda.
Notou que a lama nos pés o deixava mais firme e optou por espalhá-la em todo o seu corpo. Pouco a pouco foi moldando-se, num processo que demorou alguns meses. Acabou ganhando formas humanas, de tal maneira que era impossível saber a olho nú que nunca o fora. Por dentro ainda era todo rabiscos e tinta, mas por fora, a lama havia se transformado em pele, os musgos que encontrou pelo caminho viraram seus cabelos, e duas pedrinhas de quartzo formavam seus olhos.
Gostou da nova forma, seduziu-se por ela enquanto olhava seu reflexo na água. Envaideceu-se.
Refletiu, e depois de um tempo decidiu seu sexo, seu nome, sua essência. No processo percebeu que enquanto desejava, mais parecido com um ser humano ele ficava.
Havia se lapidado de tal maneira, que todos os seres que conheceram-no trataram de espalhar para seus vizinhos e parentes que haviam conhecido Hector, o misterioso, um humano tão impar que possuía olhos que brilhavam. Nesse ponto já havia decidido que nunca contaria a ninguém sua origem um tanto estranha. Só faria as pessoas e os seres terem medo e descrença em suas palavras. Trancou todas as lembranças do primeiro dia em seu peito, da pele frágil no nascimento às transformações inusitadas. Seu desejo por ser e permanecer humano acabou por fazê-lo esquecer-se que um dia nascera de um livro dentro de uma árvore.
Em pouco tempo Hector ficou conhecido não só pelo povoado que ficava perto do lamaçal, mas por toda aquela terra. Arrebatou-a com sua persuasão e transformou-a em seu próprio reino. Nos dias de glória que se sucederam, fez amigos muito importantes. O Lagarta era de longe um dos mais especiais, pois o aconselhava de todas as formas possíveis, sempre o motivando e lhe fazendo perguntas que instigassem sua mente a tentar se agarrar às lembranças de quem era.
Foram tempos felizes. Tempos únicos.
Hector seduzia-se cada vez mais pelo poder e pelo conhecimento. Só começaram a perceber algo estranho muito tempo depois, quando notaram que o rei de olhos reluzentes não envelhecia.
Mas isso tudo foi antes. Antes do vazio tomar conta de tudo e de todos.
O vazio era cruel, arrebatador, traiçoeiro. Chegava de mansinho, e quando começaram a percebê-lo tomando conta de tudo e de todos, já era tarde demais.
Hector ficou desolado. Seu reino fora tomado, amaldiçoado e estraçalhado de forma que não restava mais nada além do vazio. Abateu-se tanto que começou a renegar tudo.
Não restava mais luz, ele engolira-a, passara a repudiá-la, de forma que agora só vivia entre as sombras. As sombras mostravam-no tudo o que não pode fazer para salvar seu reino. Com medo da luz, envolveu-se com o manto da escuridão.
Agora, em meio ao escuro, ele encontra-se perdido.

Quando acordou, o obscuro lembrou-se de todas as palavras que foram sussurradas em seu ouvido enquanto dormia. Palavras que falavam dele mesmo, de toda sua história. Partes inclusive que ele já não se lembrava a muito tempo.
Não sabia como, mas havia alguém que o conhecia melhor do que ele mesmo, e pela primeira vez teve vertigens e medo do escuro.