Não é normal?

-Espera um instante mãe, me deixa pegar a cestinha.
-Cestinha? Quê cestinha o quê menino! Até parece que não me conhece! Trinta e oito anos e ainda não me conhece, é? Essa história de cestinha não é pra mim. Não acho isso normal. Se for pra andar pelo mercado, tem que ser com o bendito do carrinho. Nunca entendi essa história de sofrer duas vezes no mercado. E se você é casada então? Sofre três vezes. Sofre por tentar empilhar os produtos naquele espaço minúsculo dessas cestinhas de mercado, sofre a segunda vez tendo que procurar a porcaria da comida com o melhor preço, ao mesmo tempo tendo que lembrar qual é a marca que não presta. Duas já bastam. Agora, ter que arrastar o marido, parecendo uma múmia, reclamando que você está demorando e que vai perder o jogo, daí é sacrifício demais. E você sabe que não sou muito de engolir sapo, mas pelo amor! Não acho isso normal.
-Mãe, não somos a família mais normal do mundo.
-Claro que não! Onde já se viu, você, rapaz feito, com trinta e oito anos só e já divorciado? Precisando da mãe para ajudar o que decidir para as compras do mês? Não acho normal, Fred. Não acho e pronto. E pega logo esse carrinho, que não sou mulher de ficar carregando carrinho de compras para marmanjo.
-Mas mãe…
-Sem mais. Sem mais Fred. Sem. Mais. Não agüento essa história de ficar arranjando desculpas para o porquê de a Joyce ter te deixado para ir atrás de um músico. Pra começo de conversa, não acho normal pessoas se divorciarem. Eu e o teu pai vivemos juntos até ele dar o último suspiro, aquele desgraçado. Mas nunca me divorciei dele. Estava lá com ele, mesmo sabendo que ele dava uma com a vaca da vizinha no 407, mas quer saber? Ele me deu você. Me deu muito dinheiro e me deu você. E sou grata por todas as coisas que aquele canalha me deu. Agora tenho você e tenho dinheiro.
-Que horror, mãe.
-Horror? Horror!? Horror mesmo é o preço dessas toalhas vagabundas estar tão caro! Onde já se viu? E ainda por cima colocam na etiqueta que veio de um daqueles países pobres. Escravizam a população mais necessitada, compram por um preço bem menor do que da concorrência, porque nessas populações pobres eles vendem até o cachorro, quando tem cachorro, para poder sobreviver. E quem compra desse povo – um bando de sem-vergonha sem mãe, Fred – Vão lá e vendem pelo quádruplo do valor. Não acho isso normal.
-Espera, esqueci o macarrão.
-Não vai pegar aquela bosta de macarrão instantâneo outra vez. Vê se me obedece, menino, já te disse. Se fosse normal viver de macarrão instantâneo, ia ter prescrição médica para comprar. Não me interessa quem fez: se foi chinês, italiano, holandês, o papa! Não presta e pronto. Quando você estiver com a minha idade e precisar ficar ao lado de uma máquina de hemodiálise a cada dois dias, aí você vai me entender. Ah não! Não levanta esse dedo pra falar comigo não! Se você não sabe cozinhar direito, não é culpa minha! Eu te chamava, Fred, seu ingrato! Toda vez que eu ia preparar um bifinho frito, um arroz, um feijão. Sempre chamei você. Mas você queria aprender a fazer alguma coisa na cozinha? Não! Queria ficar enfurnado no quarto, jogando aquela droga daquele videogame. Não acho isso normal. Nunca achei. Gente normal não fica na frente da TV, quase vesgo de tão perto, só pra sair matando todo mundo. Por falar em todo mundo, você viu aquele desgraçado que entrou numa escola e atirou em um monte de gente? Vi na TV que deve ser culpa de videogame. Faz todo mundo ficar agressivo. Eu mesmo, queria matar o corno do teu pai por ter comprado aquela caixa do mal, viu? E nunca apertei nenhum daqueles botões. Não precisa nem encostar naquilo, só deixar na casa, e as pessoas já ficam agressivas. Não pode ser normal.
-Mãe, isso é besteira. Logo depois, várias pessoas apontaram estudos que desmentem isso. Não existe essa história de videogame deixar mais violento. As pessoas já nascem assim.
-Não interessa Fred. Pra mim é assim e ponto. Igual essa margarina aqui, ó. Onde já se viu essa história de zero porcento de gordura trans? Na minha época, não existia nada disso. E todo mundo era sadio. Não existia a tal da gordura trans. Por que? Porque isso não é normal.
“Sabe Fred, às vezes acho que o mundo está todo pirado. Essa tal de modernidade meche com todos os padrões. Não podia existir isso. Olha ali, por exemplo. Onde já se viu começar as compras do mercado pelo horti-fruti? Não consigo conceber uma pessoa que vai lá, me compra um mamão e depois enfia as compras por cima. Mamão é o tipo de fruta que quando fica marcada, ninguém quer comer. Já pensou se ao invés de eu colocar a bandeja de ovos na parte de cima, colocasse no fundo do carrinho? Iríamos comprar a abobrinha que está em promoção, passaríamos para os tomates e a batata, pegaríamos um cafezinho com aquela menina ali distribuindo degustação, eu conversaria com você, você pegaria a melancia pra mim porque ela não está muito leve e minhas costas já não são as mesmas e pronto! Não sobraria um ovo inteiro. Todos quebrados. Eu sei, a gente se distrai, meu filho. É por essas e outras que não acho normal começar pelo horti-fruti. É pedir pra acontecer um acidente desses. Até parece que esse povo nunca acompanhou mãe em mercado. Vai ver, não tinham mãe. Eu ein! Mesmo assim. Custa olhar pra qual lado vai o fluxo de pessoas? É tão difícil assim não ser do contra? E olha Fred, vai pesar esses legumes. Não vou ficar andando com sacola na mão. Quem precisava fazer compras era você.
-Mãe, mãe, mãe. Às vezes fico tão triste por não ter você por perto, sabia?
-Eu também, filho, eu também. Mas é como dizem. Mãe é só uma, cuide bem dela. Até Jesus teve mãe. Acho que todos os profetas e mártires de todas as culturas tiveram também, não? Não nasceram do nada. Tinha uma mãe lá, fazendo força, suando frio pra trazer eles pra vida. Não acho normal tanta discussão sobre qual religião é certa, qual é errada. Qual Deus é verdadeiro. Deus é Deus. É um só. Só fico me perguntando por que Adão e Eva. Isso deve ser coisa dos homens, não de Deus. Tenho certeza que antes de Adão e Eva, ele criou uma mãe! Há!
-Mãe, não fala essas coisas alto, vai.
-Não acho normal recriminar mãe, então comporte-se.
-Ok mãe, ok. Vou passar as compras no caixa.

***

E lá vinha ele. Devia ser louco mesmo, coitado. Nas primeiras vezes ela duvidou que fosse verdade, mas, vindo em sua direção, não tinha como negar. O empacotador deu um cutucão nela, com aquela risadinha infame. Soltou um “hoje sobrou pra você outra vez”.
O pior era isso. Sempre sobrava esse povo estranho pra ela. Cada um com uma mania. Mas esse era o único que fazia ela ficar com certa dó. Ela respirou fundo e pensou na hora em que o expediente acabaria. Quando chegaria em casa para os braços da Letícia, com seus seios firmes que deixavam-na louca. Ela se sentia a mais sortuda, por ter aqueles lábios carnudos e aquele cheirinho só para ela. Mas antes de mais nada, precisava passar as compras daquele rapaz. Onde já se viu um rapaz feito falando sozinho pelo mercado? Chacoalhando a cabeça e fazendo voz de mulher e de homem ao mesmo tempo? Não era normal. Ah, não era normal mesmo.

Não-meu

Tenho ciúmes de todos.
Quando desejam tua boca, que anseio em encaixar na minha.
Quando procuram teus olhos, os mesmos que me derretem por inteiro.
Quando sentem teu perfume, enquanto quero enterrar meu rosto em teu peito.
Tenho ciúmes de todos, menos dele.
Por mais que os outros desejem teu corpo, teu pelo, teu sexo,
Por mais que eu deseje e por mais que eu anseie,
Ele tem teu coração.
Não tenho ciúmes.
Invejo-o, por tê-lo para si.

Quelíceras

Tu és veneno. Tua boca, teu corpo. Tudo. É tudo veneno.
Veneno e mentiras.
Enquanto para mim tu eras prioridade, único, pra ti fui um dentre tantos.
Quantos mais? Dois, quatro, quantos mais eram teus especiais?
Enquanto eu tolo, me preocupava com teus sentimentos e catava tuas migalhas procurando o caminho, tu te embrenhavas em outros corpos, com desculpas tão bobas que eles caíam. Como eu, besta e ignorante, tapando o sol com a peneira, caía também.
Pra quê?
Me diz, de que adianta eu ter te dado meu coração?
Por que razão precisa me rasgar?
Veneno.
Me cegou com tuas palavras de fácil digestão. Me abriu, revirou minhas entranhas, tal qual fazem com peixe, aproveitando-te da minha carne e jogando fora o que não te interessava.
Eu, peito aberto, ensopado com meu próprio sangue, me engasgava com teu veneno, sorrindo, pensando tratar-se de alguma poção.
Quanto precisei saber, quão fundo precisei ir para descobrir tuas mentiras.
E há quem seja cego e te proteja.
Há quem seja bobo e te deseje.
Não há saudade em outros corpos. Mas de que valem corpos que não te tocam a alma?
Quando deitar tua cabeça no travesseiro, sentirá o vazio. Não dormirá. Remoerá tudo em teu peito, enegrecido pelo teu próprio veneno. E lembrará de mim.
Sentirá o calafrio que só as aranhas te causam.
Tuas mentiras já não me atingem mais. Me vacinei contra teu veneno.
Me tornarei a aranha, se preciso for.
Mas tuas mentiras, teu veneno, não me atingirão mais.
No fim, tua única verdade estava nas músicas. A única coisa real tua.
Mas quem dançará os acordes finais serei eu.
Lamento.

Eu não preciso de você

Eu não preciso de você.

Foi uma semana muito intensa, em que eu me peguei me apaixonando e explodindo de felicidade, e logo então caindo de um abismo.

Não preciso de você, porque os dez dias seguintes foram como se várias vezes ao longo dos dias, arrancassem meu coração e o recosturassem, em todos os lugares errados.

Não preciso, pois agora estamos ficando e é bom demais. Sinto como se estivesse pisando em ovos. Tenho inúmeros medos como qualquer pessoa. De não ser o suficiente, de acabar acontecendo tudo outra vez.

Você me pede para relaxar, para irmos com calma. Eu quero mesmo relaxar e ir com calma, mas sou capricorniano, você sabe como é. Sou conflituoso. Sou (ir)racional demais. Fiquei tanto tempo me sentindo um robô e agora todos os sentimentos brotaram no peito. E penso, penso muito. Penso até doer. E sei de uma coisa. Eu não preciso de você.

Não preciso pra ser feliz. Não preciso para me sentir vivo. Não preciso.

Mas é aí que está. Ninguém precisa de ninguém  para nada disso, mas eu quero você.

Quando minha boca toca na tua, quando minha pele encosta na tua, quando teus braços e pernas se entrelaçam com os meus.

Eu quero você.

Quando me sinto vivo, feliz, triste, obstinado. Quando me vem o frio na barriga, a sensação de montanha-russa.

Eu quero você.

E não é questão de precisar. É questão de que eu quero você, quero ouvir o som da tua voz, as batidas do coração, os olhares de deboche e até mesmo aquela cara de choque toda vez que eu digo que não conheço algo que para você é até obvio.

Quero você toda vez que lembro do teu olhar, da forma como você anda e até de quando lembro como tiramos sarro um da cara do outro com piadas que só nós entendemos.

Não preciso de você para me sentir completo, mas você me completa mesmo assim.

E eu quero.

Eu quero você.

Mergulhar

Se eu pulo de cabeça, não é para te assustar. Não é o meu normal. Acostumei-me com águas rasas, poças e copos d’água. Manchei barras de calças e bati o peito várias vezes.

Se eu pulo de cabeça, é porquê sinto a intensidade do salto, o quanto você me enche os pulmões, para que eu possa mergulhar fundo e ver tudo o que o oceano tem para oferecer. Não quero aquela mistura de medo e frustração que segue ralos e chuveiros, torneiras abertas que não proporcionam imersão.

Desde o primeiro momento, senti que não era esse o caso. Quero que entenda, não quero o teu e o meu passado. Passado é tempo verbal que não importa mais. Quero o teu presente, mas não para roubá-lo. Quero estar ao lado dele, com o meu presente. E de presente, dou-te tudo o que tenho.

Se eu pulei de cabeça, não foi para te assustar, nem ao menos por mero capricho.

Se eu pulei de cabeça (e pulei, você vê em meus olhos), é para te mostrar que dá pé para nós dois.

Então?

Quer mergulhar?

Ponto final

Passam segundos, passam minutos, passam horas,

passam dias, passam semanas, passam

meses, passam bimestres, passam

semestres, passam anos,

passam décadas,

tudo passa,

tudo,

tudo mesmo,

só eu não passo,

só essa necessidade de

compreensão não passa, só

o ponto final que não chega, só

vírgula atrás de vírgula, atrás de vírgula,

atrás de vírgula e de tanto o tempo passar já

estou velho sem vírgula nenhuma, estou

ficando com essa formigação no

braço esquerdo e o peito

queima e no fim o

ponto. Ponto

Final.

Ponto cego

Olho a folha de papel em branco. Procuro o ponto certo. Sei que, se eu aplicar a pressão necessária naquele ponto cego, escondido e se eu começar pelo lado certo, ela me levará a um outro mundo. A partir desse momento, não serei mais eu, e sim o narrador. Como narrador, minha tarefa é clara: transcrever tudo o que estiver ao meu alcance. Meus olhos se tornarão câmeras, registrando cada cor, cada nuance, cada movimento, seja compassado ou brusco. Meus ouvidos não serão mais meus, microfones atentos a qualquer ruído, sempre prontos para registrar línguas ainda não conhecidas, cantos de animais fantásticos, gritos de socorro.
O problema é que, enquanto o narrador vive essa aventura fantástica, vira jornalista de inúmeras histórias, presenciando fatos e pronto a servir, eu continuo sendo só eu, olhando essa folha de papel em branco, procurando o ponto cego que, se pressionado corretamente, me levará me distanciando, mesmo que por apenas alguns instantes, da realidade corriqueira.